Neurologista aponta os principais cuidados para evitar doenças neurológicas ao longo da vida
A saúde cerebral, um conceito dinâmico e multifacetado, assume um papel central nas discussões contemporâneas sobre o bem-estar e o desenvolvimento humano. Longe de ser meramente a ausência de doenças, a Organização Mundial da Saúde (OMS) define a saúde cerebral como o estado em que o cérebro funciona de forma otimizada em domínios cognitivos, sensoriais, socioemocionais, comportamentais e motores, permitindo que uma pessoa realize seu pleno potencial ao longo da vida. Essa capacidade intrínseca do cérebro de se adaptar, crescer e construir conexões neuronais robustas, bem como de se recuperar ou compensar lesões, é fundamental para o nosso senso, pensamento, movimento e interação com o mundo.
A relevância de se abordar a saúde cerebral de forma proativa é inegável, especialmente diante do crescente ônus das condições neurológicas globais, transtornos neurológicos representam a principal causa de anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs) e a segunda principal causa de morte globalmente, sendo responsáveis por milhões de óbitos anualmente. Quase uma em cada três pessoas desenvolverá um transtorno neurológico em algum momento da vida, sublinhando a urgência de estratégias eficazes. Contudo, a resposta global ainda é insuficiente, com acesso inadequado e desigualmente distribuído a serviços e intervenções.
De acordo com o médico neurologista, Dr. Mateus Boaventura, a boa notícia é que a otimização da saúde cerebral não exige medidas complexas ou inacessíveis, mas sim a adoção consistente de hábitos cotidianos que, quando integrados, promovem um impacto profundo e duradouro. Baseando-se em diretrizes internacionais e evidências científicas robustas, identificamos seis pilares fundamentais para cultivar uma saúde cerebral resiliente e funcional ao longo de toda a existência:
ATIVIDADE FÍSICA
O exercício físico é um dos mais potentes e acessíveis aliados da saúde cerebral, atuando muito além da manutenção da saúde cardiovascular e metabólica. A prática regular de atividades físicas, conforme o documento da OMS salienta na seção sobre saúde física, está intrinsecamente ligada à neuroplasticidade – a capacidade do cérebro de formar e reorganizar conexões sinápticas. Ele estimula a liberação de fatores neurotróficos, como o Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro (BDNF), essencial para o crescimento neuronal e a resiliência cerebral. Além disso, o exercício ajuda a amortecer a inflamação sistêmica, que pode ser prejudicial ao tecido cerebral. Estudos demonstram que a atividade física melhora a função cognitiva, incluindo memória e atenção, e pode reduzir o risco de desenvolvimento de demências e outras doenças neurológicas. A recomendação da OMS de pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada, como caminhada, dança, natação ou ciclismo, representa um investimento direto na longevidade e qualidade das funções cerebrais.
ESTIMULAÇÃO COGNITIVA CONSTANTE: MANTENDO O CÉREBRO EM CRESCIMENTO PERPÉTUO
A mente, assim como o corpo, prospera com o desafio. A estimulação cognitiva constante é vital para a manutenção e aprimoramento das funções cerebrais em todas as fases da vida. Conforme o relatório da OMS discute sob a ótica do aprendizado e da conexão social, atividades que engajam o raciocínio, a criatividade e a resolução de problemas promovem a neurogênese (nascimento de novos neurônios) e fortalecem as redes neurais existentes, contribuindo para a “reserva cognitiva”. Essa reserva age como um amortecedor contra o declínio, permitindo que o cérebro funcione eficientemente mesmo diante de algum dano ou envelhecimento. Aprender um novo idioma, resolver quebra-cabeças complexos, explorar novas habilidades artísticas ou intelectuais, e até mesmo engajar-se em profissões que exigem alto estímulo cognitivo, demonstraram estar associadas a um menor risco de demência. O documento da OMS referencia estudos que mostram que pessoas com empregos cognitivamente estimulantes tinham um risco menor de desenvolver demência, com insights sobre a proteção contra a degradação de proteínas associadas a doenças neurodegenerativas. É um lembrete de que o aprendizado é um processo contínuo e um dos pilares mais poderosos para a saúde cerebral.
ALIMENTAÇÃO INTELIGENTE: NUTRIÇÃO PARA UM CÉREBRO RESILIENTE
A relação entre dieta e saúde cerebral é profunda e bidirecional. A nutrição adequada, ou a ausência dela, influencia a estrutura e o funcionamento do cérebro desde a fase intrauterina até a idade avançada. Dietas ricas em frutas, vegetais, grãos integrais, oleaginosas e peixes gordurosos, como a Dieta Mediterrânea, têm sido consistentemente associadas a um menor risco de doenças neurodegenerativas, incluindo Alzheimer e outras demências. O documento da OMS enfatiza a importância de uma nutrição balanceada para a saúde cerebral ao longo da vida, citando que deficiências nutricionais, especialmente na vida adulta e na velhice, estão ligadas ao início do declínio cognitivo. Por outro lado, o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares, gorduras saturadas e sódio, pode induzir estresse oxidativo e inflamação crônica, favorecendo a degeneração neuronal e contribuindo para o desenvolvimento de condições como diabetes e obesidade, que são fatores de risco para a saúde cerebral. Cuidar do que comemos é cuidar das nossas conexões sinápticas.
CONEXÕES SOCIAIS: O LAÇO HUMANO QUE PROTEGE O CÉREBRO
A interação social, as conversas e os laços afetivos são muito mais do que meras atividades de lazer; são verdadeiros “treinos” para o cérebro e determinantes cruciais da saúde cerebral. A OMS reconhece a conexão social como um pilar fundamental, destacando que a qualidade dos apegos e do suporte social ao longo da vida impacta diretamente a estrutura e a função cerebral. Maiores redes sociais, por exemplo, estão associadas a volumes maiores de múltiplas estruturas cerebrais no córtex cerebral, e a qualidade dessas conexões está ligada a áreas cerebrais importantes para a memória. A socialização ativa múltiplas redes cognitivas simultaneamente e é um fator protetor contra o declínio mental. Em contrapartida, a solidão e o isolamento social, particularmente na idade adulta avançada, são fatores de risco modificáveis significativos para o desenvolvimento de comprometimento cognitivo e demência. Construir e manter relacionamentos significativos não é apenas gratificante, mas essencial para a vitalidade cerebral.
SONO DE QUALIDADE: O REPOUSO REPARADOR PARA A MENTE
O sono não é um estado de inatividade cerebral, mas sim um período crucial de intensa atividade reparadora e reorganizadora. Durante o sono profundo, o cérebro realiza uma “limpeza” metabólica vital, removendo subprodutos tóxicos acumulados durante a vigília e consolidando memórias e aprendizados. O documento da OMS enfatiza que a quantidade e a qualidade do sono têm um impacto profundo na saúde cerebral ao longo de toda a vida. A privação crônica de sono, definida como menos de 6 horas por noite em adultos, tem sido associada a um risco significativamente maior de demência. Além disso, distúrbios do sono podem levar ao aumento da inflamação sistêmica, impactando negativamente a saúde cerebral. Buscar entre 7 e 9 horas de sono de qualidade por noite é um dos investimentos mais eficazes na prevenção de doenças neurodegenerativas e na otimização do desempenho cognitivo.
CONTROLE DOS FATORES DE RISCO VASCULAR E EMOCIONAL: PROTEGENDO O CÉREBRO DE DENTRO PARA FORA
O cérebro é intrinsecamente ligado à saúde do corpo. Fatores de risco vascular, como hipertensão, diabetes, colesterol elevado e obesidade, são frequentemente citados no documento da OMS como determinantes da saúde cerebral, pois afetam diretamente o suprimento sanguíneo e a integridade dos vasos cerebrais. Essas condições aumentam substancialmente o risco de acidente vascular cerebral (AVC) e demência, entre outras patologias neurológicas. O tabagismo e o consumo excessivo de álcool também são extremamente prejudiciais, contribuindo para danos diretos e indiretos ao tecido cerebral. A OMS detalha que o tabagismo está associado a um risco aumentado de AVC, demência e esclerose múltipla, enquanto o uso nocivo de álcool pode levar a atrofia cortical e degeneração cerebelar.
Além disso, a saúde emocional e mental desempenha um papel inseparável na saúde cerebral. Condições como depressão e estresse crônico podem levar a alterações na estrutura cerebral, como a hiperativação da amígdala e do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), que modulam a resposta ao estresse. O relatório da OMS aponta que a adversidade socioeconômica, por exemplo, pode influenciar o risco de doenças cardiovasculares por meio de cascatas de estresse direcionadas pelo cérebro. Gerenciar essas condições por meio de check-ups regulares, acompanhamento médico e psicológico, e a adoção de estratégias de redução de estresse, como técnicas de mindfulness ou ioga, são essenciais para proteger a integridade cerebral. A perda auditiva, embora por vezes subestimada, também é reconhecida como um fator de risco para a saúde cerebral, sendo responsável por uma parcela significativa da prevalência global de demência. Cuidar da saúde física e mental é, portanto, cuidar da saúde cerebral em sua totalidade.
Evidências Concretas e o Impacto do Investimento Precoce
A importância da abordagem multifacetada para a saúde cerebral é corroborada por uma vasta base de evidências. O estudo conduzido por Liu e colaboradores, publicado na revista Neurology, que avaliou mais de 29 mil idosos chineses, reforça de forma contundente essa perspectiva. Ao demonstrar que a adesão a apenas quatro a seis hábitos de vida saudáveis está associada a uma redução drástica de até 90% no risco de demência, a pesquisa consolida a ideia de que pequenas e consistentes mudanças no estilo de vida podem gerar efeitos duradouros e transformadores. Estes dados são um testemunho da capacidade de resiliência e adaptação do cérebro, mesmo na idade avançada.
O impacto da otimização da saúde cerebral estende-se muito além da redução da incidência de doenças neurológicas. A OMS salienta que esse otimismo se traduz em benefícios sociais e econômicos amplos: desde a diminuição dos custos com saúde e a redução de incapacidades, até o aumento das taxas de retenção escolar, a redução da gravidez na adolescência e das taxas de encarceramento, e um incremento na produtividade e na riqueza individual e social. O conceito de “capital cerebral”, emergente nos campos da economia e ecologia, reflete o imenso impacto do funcionamento cerebral nas sociedades e busca quantificar as perdas potenciais caso a saúde cerebral seja negligenciada.
Investimentos em desenvolvimento infantil precoce, por exemplo, podem trazer ganhos substanciais ao longo da vida, com retornos significativos. A “Curva de Heckman” ilustra que os maiores retornos financeiros para intervenções sociais ocorrem na primeira infância e na fase pré-escolar, dada a extraordinária neuroplasticidade do cérebro nessa etapa. Embora as intervenções precoces sejam mais custo-efetivas, o suporte contínuo ao longo da infância, adolescência e vida adulta ainda oferece ganhos substanciais, reforçando que nunca é tarde para adotar hábitos protetores.
Em suma, a saúde cerebral é um bem inestimável que deve ser valorizado, promovido e protegido em todas as fases da vida. Sua otimização exige uma colaboração multissetorial e um compromisso integrado de toda a sociedade – abrangendo saúde, educação, legislação, finanças, emprego, infraestrutura e meio ambiente. Conforme enfatiza o Dr. Mateus Boaventura, “É essencial promover uma cultura de cuidado cerebral desde a juventude. Cuidar do cérebro é cuidar de quem seremos no futuro”.
Sobre o Dr. Mateus Boaventura de Oliveira
Médico Neurologista, professor e pesquisador, o Dr. Mateus Boaventura de Oliveira é tem formação em Neurologia e doutorado pela Universidade de São Paulo (USP), com formação em esclerose múltipla no renomado Cemcat – Hospital Vall d’Hebron, em Barcelona. Atua no Hospital Sírio-Libanês e possui vasta experiência em Esclerose Múltipla. É detentor do título de especialista pela Academia Brasileira de Neurologia e dedica-se ativamente à pesquisa científica e ao acompanhamento de pacientes com EM. O Dr. Mateus Boaventura também mantém canais dedicados à disseminação de informações sobre a Esclerose Múltipla e outras doenças neurológicas, oferecendo conteúdo didático e acessível ao público.
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